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Aparados da Serra, divisa RS e SC

Roteiro de 5 dias em Aparados da Serra: os cânions por cima e por dentro

Roteiro de 5 dias em Aparados da Serra: Itaimbezinho e Fortaleza de cima, Rio do Boi e Malacara por dentro, com ingressos, estradas e plano para a neblina.

Foto: Everson José de Freitas Pereira · CC BY-SA 3.0

Em Cambará do Sul, a mais de mil metros de altitude, você anda pelo campo e de repente o chão acaba: à frente, o paredão do Itaimbezinho cai centenas de metros. No quarto dia, em Praia Grande, quase ao nível do mar, você caminha pelo leito do rio que corre lá no fundo, com esses mesmos paredões dos dois lados. Este roteiro faz os cânions da divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina pelos dois lados: três dias em cima, dois embaixo e a descida da serra no meio.

É uma viagem para quem gosta de caminhar. Nenhuma trilha exige experiência técnica, mas a do Rio do Boi tem sete horas de caminhada com travessias de rio, e todo dia envolve estrada de terra. E depende do céu: a neblina pode fechar um cânion inteiro em minutos, por isso a ordem dos dias deixa margem para troca.

Antes de ir: carro, quando ir e as regras do ingresso

Carro, de preferência mais alto. Alugue no aeroporto de chegada; sem carro, só com transporte contratado. O Itaimbezinho fica a 18 km do centro de Cambará por estrada de cascalho, que está em obras de pavimentação, então o trecho de terra pode ser menor quando você for. O Fortaleza fica a 23 km, com o trecho final sem asfalto. Carro baixo passa, devagar. A Serra do Faxinal, ligação direta entre Cambará e Praia Grande, está em obra e só abre em janelas curtas (veja o dia 3).

Quando ir. O inverno, de junho a agosto, costuma ter o céu mais limpo e a melhor visibilidade, com frio forte e geada nas madrugadas. Outono e começo da primavera são um meio-termo razoável. Outubro e novembro trazem de volta a umidade e a neblina, e no verão as chuvas de fim de tarde e a neblina densa são comuns. Em compensação, é no verão que a água dos rios de Praia Grande fica boa para banho. Não existe época garantida: a região é úmida o ano inteiro.

Ingressos e dias de fechamento. O Itaimbezinho e o Rio do Boi, no Parque Nacional de Aparados da Serra, e o Fortaleza, no Parque Nacional da Serra Geral, têm a visitação operada pela concessionária Urbia Cânions Verdes, sob supervisão do ICMBio. O Malacara, também na Serra Geral, fica fora da concessão e não tem ingresso da Urbia. As regras que moldam este roteiro:

  • O ingresso do Itaimbezinho e do Fortaleza dá três acessos em sete dias, a contar do primeiro, em qualquer combinação dos dois. É exatamente o que os três primeiros dias usam.
  • Os dois abrem das 8h às 17h, e cada um fecha um dia por semana: o Itaimbezinho às segundas, o Fortaleza às terças. Na sequência deste roteiro (Itaimbezinho, Fortaleza, Itaimbezinho), não comece num sábado nem numa segunda.
  • O estacionamento é cobrado à parte no Itaimbezinho e no Fortaleza. No Rio do Boi, por enquanto, não.
  • A trilha do Rio do Boi tem ingresso próprio, vagas por dia, idade mínima de 12 anos e exige guia credenciado pelo ICMBio. Feche o guia primeiro e compre o ingresso para a data combinada com ele.
  • As trilhas de cima não têm idade mínima, e crianças até 6 anos não pagam. Animais de estimação não entram em nenhuma área.
  • Neblina e chuva não dão direito a reembolso nos cânions de cima.

Os ingressos são vendidos no site da concessionária e nas bilheterias do Itaimbezinho e do Fortaleza. Compre pelo site: ingresso de bilheteria não pode ser remarcado nem cancelado, e a portaria do Rio do Boi não vende. Pelo site, cada ingresso admite uma remarcação gratuita pedida até 12 horas antes da data, o que ajuda quem confere a previsão na véspera.

O sentido do circuito. Chegue por cima e saia por baixo. Quem vem de Porto Alegre sobe por São Francisco de Paula até Cambará e, no fim, volta pela BR-101, pelo litoral, sem refazer a subida da serra. Quem vem de Florianópolis pode fazer o caminho ao contrário; na subida valem as mesmas janelas da Serra do Faxinal.

Dia 1: chegada a Cambará e a trilha do Vértice no Itaimbezinho

De Porto Alegre a Cambará do Sul são cerca de 190 km, três horas pela RS-020. Saindo às 7h, você chega por volta das 10h. Depois de São Francisco de Paula a mata dá lugar ao campo aberto, com araucárias isoladas; mesmo em janeiro, leve casaco.

Deixe as malas e siga para o Itaimbezinho. O cânion tem 5,8 km de extensão e paredões de 600 a 750 m de profundidade, por onde corre o Arroio Perdizes. Para a primeira visita, faça a trilha do Vértice, de 1,5 km ida e volta e cerca de uma hora: ela leva a mirantes sobre o encontro dos paredões e sobre as cachoeiras das Andorinhas e do Véu de Noiva, que se jogam lá do alto.

O Itaimbezinho visto da borda, na área das trilhas do Vértice e do CotoveloFoto: Valdiney Pimenta from Campinas - SP, Brazil · CC BY 2.0

Volte a Cambará no fim da tarde. A cidade é pequena e a culinária é a dos Campos de Cima da Serra: comida campeira, truta das criações da região, queijo serrano e, de abril ao inverno, pinhão de todo jeito.

Dia 2: o Cânion Fortaleza, o mais extenso dos dois

Saia às 8h. Os 23 km até o Cânion Fortaleza, no Parque Nacional da Serra Geral, terminam em terra e pedra; conte de 30 a 45 minutos.

O Fortaleza tem 7,5 km de extensão e corta o campo aberto, sem a mata que cerca a borda do Itaimbezinho, e a vista vai longe: em dia limpo, chega à faixa do litoral. As trilhas, com os tempos da concessionária:

  • Mirante, 1h45 e 3 km ida e volta: sobe até o Alto do Mirante, com a vista do cânion inteiro.
  • Quebra-Cangalha, mais duas horas a partir do Alto do Mirante, seguindo a borda.
  • Pedra do Segredo, 2h45 e 3 km ida e volta: passa pela cachoeira do Tigre Preto e chega a um bloco de rocha equilibrado sobre uma base mínima.
  • Borda Sul, três horas.

Guia é sugerido, mas não obrigatório. Faça o Mirante emendado na Quebra-Cangalha de manhã, umas quatro horas no total, almoce (há alimentação no Fortaleza) e use a tarde para a Pedra do Segredo. A Borda Sul fica para quem ainda tiver pernas ou para um dia de reserva.

O Cânion Fortaleza em dia limpo, com o vale descendo em direção ao litoralFoto: Guilherme Nunes Serafina · CC BY-SA 4.0

Bom saber

Se tiver que escolher um só cânion de cima, escolha o Fortaleza num dia de céu aberto. O Itaimbezinho é mais famoso e mais estreito, com as cachoeiras como destaque; o Fortaleza é mais amplo e mostra melhor a escala da escarpa da Serra Geral.

Dia 3: a trilha do Cotovelo e a descida da serra para Praia Grande

Deixe a hospedagem cedo e volte ao Itaimbezinho para o terceiro acesso do ingresso. A trilha do Cotovelo tem 6 km ida e volta, duas horas e meia pelo tempo da concessionária, e segue pela borda entre araucárias até o ponto onde o cânion faz uma curva fechada. Aqui o horário que manda é o da estrada (veja abaixo): comece às 9h se for descer pelo asfalto, ou no máximo às 12h30 se for pegar a janela da tarde da serra. Leve lanche; no Itaimbezinho há só loja de conveniência.

Araucárias no caminho das trilhas da borda do ItaimbezinhoFoto: Germano Roberto Schüür · CC BY-SA 3.0

Da portaria, a mesma estrada segue para Praia Grande pela Serra do Faxinal, uns 20 km. A serra está na fase final da pavimentação: ficou fechada de abril a agosto de 2026 e, desde 18 de agosto, abre só em duas janelas curtas por dia, em pista única com siga e pare, apenas para carros e motos.

Em geral há uma janela no começo da manhã e outra no fim da tarde, mas os horários mudam no fim de semana e já saíram em versões diferentes. Com chuva, neblina ou serviço pesado, a passagem é suspensa, e algumas etapas pedem bloqueio de dias inteiros, como o de 19 a 21 de outubro de 2026, para a montagem do viaduto do Morro dos Cabritos. Confira os horários na véspera nos canais da Secretaria de Infraestrutura de Santa Catarina e chegue à fila antes da janela. Quando a obra terminar, a serra volta a abrir o dia todo.

Até lá, o caminho previsível é o asfalto: volte a Cambará e desça por Tainhas e pela Rota do Sol até Terra de Areia, subindo depois a BR-101 até Três Cachoeiras e a saída para Praia Grande. São cerca de 165 km e três horas a partir de Cambará; do Itaimbezinho, some meia hora de cascalho até a cidade. No inverno, quando escurece antes das 18h, prefira o asfalto em qualquer caso.

Pelo caminho que for, você desce cerca de mil metros e troca o casaco pelo repelente. Do pé da serra se vê a escarpa inteira, com as bocas dos cânions recortadas na parede, inclusive a do Itaimbezinho, onde você estava de manhã. Confirme com o guia o horário e o ponto de encontro do dia seguinte: a portaria do Rio do Boi fica a 11 km do centro, por estrada sem asfalto.

Dia 4: a trilha do Rio do Boi, por dentro do Itaimbezinho

A trilha do Rio do Boi sobe o leito do rio por dentro do Itaimbezinho, com os paredões que você viu de cima no dia anterior agora dos dois lados. São 14 km ida e volta e sete horas de caminhada, parte em mata e parte sobre as pedras do rio, com várias travessias, a água pelas canelas ou acima. A concessionária classifica a trilha como de alto grau de dificuldade. A entrada vai das 8h às 11h e a saída, até as 17h; saia cedo para não caminhar com pressa.

O trecho final da trilha do Rio do Boi, já no interior do ItaimbezinhoFoto: Portal dos Canyons · CC BY-SA 4.0

O que levar e saber:

  • Perneiras são obrigatórias, junto com calçado de solado próprio para trilha que possa molhar. Pergunte ao guia se ele fornece; se não, alugue ou compre antes.
  • Dois litros de água por pessoa, lanche reforçado e uma muda de roupa seca para deixar no carro.
  • Documento com foto, exigido na entrada.
  • Rios sobem de repente com chuva nas cabeceiras, mesmo sem chover no local, e há risco de queda de rochas no trecho final, maior em dia de vento.
  • Se o ICMBio fechar a trilha por causa do tempo, o ingresso pode ser remarcado, mas o pedido tem de ser feito no mesmo dia, até as 16h, e depende de vaga. Combine antes com o guia o que acontece com o pagamento dele.

A volta é pelo mesmo leito e cansa tanto quanto a ida.

Dia 5: o Malacara, a caminhada mais leve, e a volta pela BR-101

O Malacara, no Parque Nacional da Serra Geral, é a caminhada mais curta e tranquila de Praia Grande, e por isso cabe no último dia. A trilha começa a uns 6 km do centro, na estrada para a Vila Rosa, e acompanha o rio por 2 km dentro de um vale aberto até o Poço da Figueira, com várias travessias rasas. Conte de três a quatro horas com as paradas; crianças e idosos com boa mobilidade fazem. O Geoparque Mundial da Unesco Caminhos dos Cânions do Sul, que abrange toda a região, recomenda ir com guia cadastrado no ICMBio; no trecho final, sobre pedras grandes, a ajuda dele faz diferença.

O rio Malacara, com os paredões do cânion à frenteFoto: Portal dos Canyons · CC BY-SA 4.0

Saia por volta das 8h, termine perto do meio-dia, almoce em Praia Grande e pegue a BR-101. Até Porto Alegre são pouco mais de 200 km e três horas; até Florianópolis, cerca de 280 km e quatro horas; até o aeroporto de Jaguaruna, cerca de 120 km e duas horas.

Neblina e chuva: como não perder a viagem

A neblina que sobe do litoral pelos paredões tem nome local, viração, e é o principal risco da viagem. Ela pode cobrir o Fortaleza de manhã e abrir à tarde, ou o contrário, e um cânion pode estar fechado enquanto o outro está limpo.

Mar de nuvens no Cânion Fortaleza: o mesmo mirante pode estar fechado de manhã e aberto à tardeFoto: Jjunoo · CC BY-SA 4.0
  • Os três acessos em sete dias são seu seguro. Se o Fortaleza estiver fechado no dia 2, faça o Cotovelo e deixe o Fortaleza para o dia 3, descendo pela janela da tarde da serra ou pelo asfalto. Essa troca não funciona se a viagem começar num domingo (segunda o Itaimbezinho fecha, terça o Fortaleza); nesse caso, a Borda Sul ou o fim da tarde do mesmo dia são a única segunda chance.
  • Na dúvida, vá e espere na borda: a neblina costuma abrir e fechar várias vezes no mesmo dia.
  • Chuva forte cancela o Rio do Boi. Se o dia 4 cair, faça o Malacara (se o rio permitir) e tente o Rio do Boi no dia 5, o que depende de remarcar o ingresso e o guia. Saindo da trilha às 15h ou 16h, você chega a Porto Alegre no começo da noite.

Onde ficar: Cambará para o frio, Praia Grande para a escarpa

Cambará do Sul

A base para os três primeiros dias. Do centro saem as estradas para o Itaimbezinho e para o Fortaleza, então qualquer endereço na cidade serve. Há também pousadas rurais no campo, mais perto da borda dos cânions; em troca, cada refeição vira um trecho de estrada de terra, muitas vezes à noite e com neblina. Na cidade, a oferta de restaurantes é curta. De maio a setembro, as madrugadas ficam abaixo de zero com frequência: verifique se a hospedagem tem aquecimento ou lareira.

Praia Grande

A base para os dois últimos dias, no pé da serra e perto das trilhas do Rio do Boi e do Malacara. O clima é outro: quente e úmido no verão, com muito inseto perto dos rios (leve repelente). A cidade é pequena, e muitas hospedagens ficam fora do centro com vista direta para a escarpa. O ponto fraco é a distância dos cânions de cima, do outro lado da Serra do Faxinal: não vale subir de novo só para um dia no Fortaleza.

Como chegar: aeroportos dos dois lados da serra

  • Porto Alegre: o aeroporto mais prático, a três horas de Cambará pela RS-020, passando por Taquara e São Francisco de Paula.
  • Caxias do Sul: a cerca de 140 km de Cambará, duas horas, com menos voos.
  • Florianópolis: a quatro horas de Praia Grande pela BR-101, para quem faz o circuito ao contrário.
  • Jaguaruna (Aeroporto Regional Sul): o mais perto de Praia Grande, a duas horas, mas com poucos voos; confira as rotas em operação e o aluguel de carro antes de fechar.

Há ônibus até as duas cidades; de lá até as trilhas, só com transporte contratado.

Se tiver menos dias

  • Quatro dias: junte o Vértice e o Fortaleza no dia 1, se chegar cedo, e corte o Malacara. O Rio do Boi não deve sair do roteiro.
  • Três dias: chegue cedo, faça o Mirante do Fortaleza de manhã e o Vértice no começo da tarde, e desça no mesmo dia pela janela da tarde da Serra do Faxinal ou pelo asfalto, por Tainhas. No inverno, só pelo asfalto, e a Rota do Sol cai no escuro: se puder, durma em Cambará e desça cedo, porque a entrada do Rio do Boi fecha às 11h. No segundo dia, Rio do Boi; o terceiro fica de reserva para neblina ou chuva. Não comece numa segunda nem numa terça.
  • Bate-volta: dá para ver o Itaimbezinho e o Fortaleza num dia saindo de Gramado ou Canela, mas é uma aposta: se a neblina fechar, não sobra outro dia para tentar.
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Cachoeira Véu de Noiva despencando pelo paredão do cânion Itaimbezinho, com araucárias na borda

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