Santa Cruz, Argentina
Roteiro de 8 dias na Patagônia: Perito Moreno e as trilhas de El Chaltén
Roteiro de 8 dias por El Calafate e El Chaltén: minitrekking no Perito Moreno, Laguna de los Tres, ingressos de 2026 e um dia de folga para o mau tempo.
O Perito Moreno avisa antes de desabar. Um estalo seco, como um tiro dentro de um galpão, corre pela parede de gelo; segundos depois, um bloco do tamanho de um prédio se solta e cai no lago, e a onda chega até a margem. Nas passarelas, centenas de pessoas ficam em silêncio esperando o próximo. A três horas de ônibus de El Calafate, em El Chaltén, o barulho é outro: o vento nas janelas e as botas no cascalho de quem saiu antes do amanhecer para ver o Fitz Roy pegar a primeira luz.
As duas cidades são as portas do Parque Nacional Los Glaciares, na província de Santa Cruz, e cabem numa mesma viagem de oito dias. A sequência abaixo dá dois dias ao glaciar e três às trilhas de El Chaltén, e guarda um dia de folga, porque aqui quem decide a ordem dos dias é o tempo.
Antes de ir: temporada, vento e o que reservar
A temporada vai de outubro a abril. Em dezembro e janeiro, o sol se põe por volta das 22h e dá para caminhar até tarde. É também a época mais cheia e mais cara, e a do vento mais forte: no verão, as rajadas podem tirar o equilíbrio de quem sobe o último trecho até a Laguna de los Tres. Março e abril trazem as cores de outono nas lengas, menos gente e dias mais curtos.
De maio a setembro há neve, parte de El Chaltén fecha e algumas trilhas ficam perigosas. O minitrekking funciona quase o ano todo (para em junho e no começo de julho), e a navegação, o ano todo; as trilhas de El Chaltén pedem a temporada.
Reserve com antecedência, nesta ordem:
- Voos. Aerolíneas Argentinas e JetSMART voam de Buenos Aires a El Calafate em pouco mais de três horas. De 26 de novembro de 2026 a 27 de março de 2027, a Gol voa direto de Guarulhos às terças, quintas e sábados, saindo à 0h10 e pousando às 6h. A volta desse voo sai de Ushuaia, não de El Calafate: o retorno ao Brasil continua precisando de conexão.
- Hospedagem em El Chaltén. A vila é pequena e lota no verão.
- Minitrekking ou Big Ice, que têm vagas limitadas por dia.
- A navegação aos glaciares Upsala e Spegazzini.
Os ônibus entre as duas cidades podem ser comprados na véspera fora do pico; no verão, compre com alguns dias de folga.
Ingressos do parque em 2026: quando o Flexipass compensa
Desde 1º de junho de 2026, estrangeiro paga 50 mil pesos por dia para entrar no Parque Nacional Los Glaciares, nos dois setores. O segundo dia sai pela metade se for usado em até 72 horas depois da primeira entrada. Há ainda o Flexipass de 3 dias, por 100 mil pesos, e o de 7 dias, por 175,5 mil, segundo a tabela oficial de tarifas.
Nos oito dias propostos aqui, cinco são pagos, em dois setores que a tabela cobra separado. No sul, glaciar e navegação dão 75 mil pesos (50 mil mais 25 mil do segundo dia). Em El Chaltén, Los Cóndores, Laguna Torre e Laguna de los Tres custariam 125 mil avulsos; o Flexipass de 3 dias do setor, por 100 mil, já compensa. Se cortar algum desses dias, refaça a conta.
Bom saber
No setor de El Chaltén, o ingresso é vendido só online, no site ou por QR Code no início da trilha, e só com cartão; dinheiro não é aceito. Compre antes de sair da hospedagem. No Perito Moreno, a portaria aceita também pesos em espécie.
Onde dormir: centro de El Calafate e a ponta norte de El Chaltén
El Calafate
A cidade cresceu ao longo da Avenida del Libertador, que concentra restaurantes, agências, supermercados e o terminal de ônibus. Dormir no centro ou a poucas quadras dele resolve tudo a pé. As ruas mais altas, na encosta, têm vista do Lago Argentino e mais silêncio, mas a subida no vento cansa e, à noite, você vai depender de táxi.
El Chaltén
A vila inteira se atravessa a pé em 20 minutos. Os ônibus chegam ao terminal, na entrada, ao sul; a trilha da Laguna de los Tres começa no extremo norte, e a da Laguna Torre, no noroeste, perto dela. Ficar na metade norte economiza caminhada no começo e no fim dos dias longos, o que pesa quando você volta com mais de 20 km nas pernas. Confirme se a hospedagem aceita cartão e leve dinheiro de El Calafate: os poucos caixas eletrônicos da vila costumam ficar sem notas na alta temporada.
Se o tempo virar: como reorganizar os dias
Em El Chaltén, a previsão muda de hora em hora. No Centro de Visitantes, pergunte aos guardaparques sobre vento e trilhas; à noite, confira um site de previsão de vento para decidir a trilha do dia seguinte. Com chuva, Los Cóndores e Chorrillo del Salto seguem possíveis.
Em El Calafate, o glaciar aceita céu nublado; a navegação aceita nuvem, mas não vento forte. Laguna Torre e Laguna de los Tres, não: guarde para elas os dias de céu aberto.
Dia 1: chegada a El Calafate e flamingos na Laguna Nimez
O aeroporto fica a 21 km do centro. Há transfer e táxi no desembarque.
Deixe a tarde leve. A Reserva Laguna Nimez, na beira do lago, tem trilha plana entre lagoas e aves aquáticas, como flamingos e cisnes-de-pescoço-preto, e rende mais no fim da tarde. Antes do jantar, passe no supermercado: lanche, água e chocolate para os dias de trilha custam menos aqui do que em El Chaltén.
Dia 2: Glaciar Perito Moreno, das passarelas ou de grampões
O glaciar fica a 78 km de El Calafate, 1h30 de estrada. A frente tem 5 km de largura e, em média, 74 metros acima da água. As passarelas descem a encosta em vários níveis, de frente para a parede, e pedem pelo menos duas horas. Quem espera num banco vê vários desabamentos.
Sem passeio no gelo, o caminho mais simples é uma excursão às passarelas. A da Cal Tur, segundo a empresa, busca na hospedagem às 9h e sai do parque às 16h; o ingresso do parque é pago à parte.
Para chegar perto do gelo, há três passeios, todos da Hielo y Aventura, concessionária do parque, saindo do porto Bajo de las Sombras, 7 km antes das passarelas. Escolha antes de viajar:
- Safari Náutico: uma hora de barco diante da parede sul, sem esforço, o ano todo.
- Minitrekking: barco até a outra margem, caminhada pela costa e pela morena, um trecho sobre o gelo com grampões e volta pelo bosque. São três horas de caminhada, para quem tem de 8 a 65 anos, de meados de julho a maio. Com o transfer de El Calafate, o dia tem umas 9h30.
- Big Ice: o passeio longo, de 12 horas com transfer, que entra fundo no glaciar. Só aceita quem tem de 18 a 50 anos, soma 7h30 de passeio sem contar a estrada e opera de 15 de setembro a 30 de abril. É o mais caro dos três.
Quem faz o minitrekking com transfer fica uma hora nas passarelas; para ficar mais, vá por conta própria e encontre o barco no Bajo de las Sombras.
Leve comida para o dia inteiro: a empresa não vende lanche no passeio. Vá de casaco corta-vento, gorro, luvas, óculos escuros e protetor solar, porque o reflexo do gelo queima mesmo com céu fechado.
Dia 3: Upsala e Spegazzini, sete horas no Lago Argentino
A navegação Todo Glaciares, da Solo Patagonia, sai do porto de Punta Bandera, a 47 km de El Calafate, e passa sete horas no lago. O barco atravessa a Boca del Diablo, passa entre icebergs e chega à frente do Upsala, um dos maiores glaciares do parque. Depois vem o Spegazzini, o mais alto, com paredes de até 135 metros.
Há uma parada na Base Spegazzini, com trilha acessível até um refúgio com mirante. Para a temporada de outubro de 2026 a março de 2027, custa a partir de 330 mil pesos por adulto, mais 65 mil pelo transfer até Punta Bandera, sem o ingresso do parque.
Plano B: se o vento cancelar a navegação, peça para remarcar. Com voo à noite no Dia 8, ela cabe nesse dia; senão, troque pelo Safari Náutico do Perito Moreno, que dura uma hora.
Dia 4: estrada até El Chaltén e o primeiro mirante
São 215 km até El Chaltén, umas três horas de ônibus por estrada asfaltada. Cal Tur, Chaltén Travel e Taqsa têm saídas de manhã e no fim da tarde, e algumas param no aeroporto; compre com antecedência a primeira saída da manhã. Sente do lado esquerdo: o Lago Viedma acompanha a estrada desse lado e, na reta final, o Fitz Roy surge à frente.
Na entrada da vila, antes do terminal, fica o Centro de Visitantes do parque: passe lá para pegar mapa e saber o estado das trilhas. Depois de deixar a mala, suba ao mirante de Los Cóndores, que começa ali mesmo: umas duas horas ida e volta, ou de 2h30 a 3 horas se seguir até o de Las Águilas, com vista da vila, do Lago Viedma e do Fitz Roy. Esse mirante já fica dentro do parque: compre o ingresso do dia pelo QR antes de subir. Serve de aquecimento para as trilhas longas; em dezembro, quem volta lá às 21h pega o pôr do sol sobre a vila.
Dia 5: Laguna Torre, icebergs ao pé do Cerro Torre
A trilha tem 19 km ida e volta, pouco desnível e leva de 7 a 8 horas com paradas. Sai do noroeste da vila, sobe uma garganta do Rio Fitz Roy e, depois de uma hora, chega ao Mirador del Torre, primeiro ponto com vista do Cerro Torre e do Cordón Adela. O trecho final cruza o vale até a morena da laguna, onde costumam boiar icebergs soltos do Glaciar Grande.
O Cerro Torre vive escondido nas nuvens. Se amanhecer limpo, faça esta trilha nesse dia, mesmo fora de ordem.
Dia 6: Laguna de los Tres, a subida final até o Fitz Roy
A trilha mais famosa da Patagônia argentina tem cerca de 22 km ida e volta, de 8 a 10 horas, e começa no extremo norte da vila. A primeira hora sobe com vontade até um mirante sobre o vale do Rio de las Vueltas. Depois o caminho fica plano, entre bosques de ñire e lenga, passa a Laguna Capri e chega ao acampamento Poincenot, a umas três horas da saída.
Dali, o último quilômetro sobe 400 metros de pedra solta e leva mais de uma hora. Com vento forte, esse trecho é sério; com neve ou gelo, é perigoso: sem grampões, volte do Poincenot. Lá em cima, a laguna verde-azulada fica ao pé do Fitz Roy; contorne a laguna pela esquerda e, das pedras, a Laguna Sucia aparece lá embaixo.
Bom saber
Saia antes das 7h, para pegar a subida final antes das nuvens e do movimento, e leve três litros de água, almoço e casaco.
Uma variação é contratar transfer até o setor El Pilar, na estrada do Río Eléctrico, cerca de 17 km ao norte da vila, e voltar a pé até El Chaltén passando pela Laguna de los Tres: a caminhada fica um pouco mais curta e você não repete o caminho.
Dia 7: a trilha que faltou ou o Chorrillo del Salto, e volta a El Calafate
Se o tempo fechou no Dia 5 ou no Dia 6, saia às 6h para a trilha que ficou faltando e pegue o último ônibus da tarde. A Laguna Torre cabe com folga; a Laguna de los Tres fica apertada, e vale dormir mais uma noite na vila.
Se tudo deu certo, a manhã é leve: a cachoeira Chorrillo del Salto, com uns 20 metros de queda, fica a 4 km do extremo norte da vila, por caminho quase plano e fora dos portais cobrados do parque. Pegue o ônibus do fim da tarde para El Calafate, que chega por volta das 20h.
Dia 8: voo de volta
Os voos para Buenos Aires saem ao longo do dia; se o seu for à tarde, dá tempo de uma última volta pela Laguna Nimez.
Esticar até Torres del Paine, no Chile
Com três ou quatro dias a mais, dá para cruzar para o Chile. O ônibus de El Calafate a Puerto Natales percorre cerca de 270 km e leva de 5 a 6 horas, com a fronteira de Cancha Carrera e Cerro Castillo no meio. De Puerto Natales ao Parque Nacional Torres del Paine são umas duas horas de ônibus.
O RG também vale para entrar no Chile, e o fuso de Magallanes é o mesmo da Argentina. O Chile proíbe entrar com fruta, verdura, carne, laticínios e outros alimentos frescos: declare toda comida no formulário do serviço agrícola, o SAG, ou deixe-a para trás.
A entrada no parque é vendida pelo site Pases Parques, que a CONAF indica como canal oficial: compre antes e confira lá o valor para estrangeiro. Para dormir dentro do parque, no circuito W, os campings e refúgios exigem reserva antecipada, e na alta temporada esgotam meses antes.
Sem tempo, dá para comprar em El Calafate o bate-volta num dia só, com muitas horas de estrada.
Documentos, dinheiro e celular: o RG basta, o sinal acaba na trilha
O brasileiro entra na Argentina só com o RG físico, em bom estado e emitido há menos de 10 anos, segundo a Polícia Federal; CNH e identidade digital não valem. Passaporte também serve.
Cartão emitido no Brasil é convertido por uma cotação para estrangeiros, próxima do dólar MEP, e paga IOF de 3,5%. Em El Calafate ele funciona quase em todo lugar, e dá para trocar dólares ou reais nas casas de câmbio da Avenida del Libertador ou sacar no caixa, que cobra tarifa fixa por operação. Em El Chaltén, padarias e pequenos comércios às vezes só aceitam dinheiro.
O fuso é o mesmo de Brasília. A tomada é de 220 V, com pinos chatos em V: leve adaptador. Fora das cidades não há sinal de celular, então baixe os mapas das trilhas para usar offline antes de sair.
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